quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Documentário sobre Saramago concorre pelo Oscar

O documentário José e Pilar, que relata a vida do falecido escritor português José Saramago e sua esposa, a jornalista espanhola Pilar del Río, foi apresentado na última terça-feira (1º) em Nova York como parte da campanha para indicação ao Oscar.

"O filme é inovador na forma de contar a história e, ao mesmo tempo, é muito humano e universal. Tem toda a legitimidade para ser indicado e até para ganhar", disse o diretor, o português Miguel Gonçalves Mendes, em entrevista à imprensa.
José e Pilar, que teve mais de 200 horas gravadas para a produção bruta, retrata a vida profissional e pessoal do casal desde princípios de 2006 até finais de 2008, durante o processo criativo, elaboração e lançamento do romance A Viagem do Elefante.
"O filme desconstroi alguns tópicos sobre a vida do escritor", declarou Pilar del Río, que também participou da apresentação. "Não é a vida de glamour que muitos acreditam ter, os espectadores se dão conta da pressão que existe".
Foi justamente a vocação de mudar a imagem que se tem do escritor o que levou Gonçalves Mendes a dirigir o documentário, com o qual tinha a intenção de "fazer um retrato intimista do autor".
"Saramago às vezes é visto como alguém muito sério. Eu não entendia como alguém que coloca esse grau de humanidade em seus personagens podia ser o que alguns diziam que era", explicou o cineasta.
O filme foi o escolhido pelo Instituto Cinematográfico e Audiovisual português para representar Portugal no Oscar. O diretor lembrou que, na terra natal de Saramago, a obra foi vista por 30 mil pessoas, enquanto, no Brasil, o público chegou a 40 mil.
A fita já tem distribuidora nos Estados Unidos e lançamento previsto para abril, mas ainda deve ser selecionada pela Academia de Hollywood para concorrer ao Oscar, seja na categoria de Melhor Filme Estrangeiro ou de Melhor Documentário.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Livrarias recebem obra perdida de Saramago

Claraboia, romance escrito nos anos 1950 por José Saramago (1922 - 2010), chega hoje às livrarias do Brasil e de Portugal, segundo anunciou durante a Feira de Frankfurt, na semana passada, Pilar Reyes, diretora da editora Alfaguara.

Saramago enviou o livro à sua editora logo após escrevê-lo, mas a obra nunca havia sido publicada. Como ele não guardou uma cópia, o romance acabou perdido nos arquivos da editora. Claraboia só foi encontrado nos anos 1980, durante uma mudança.

Na época o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1998 já era um escritor conhecido, o que despertou o interesse da editora em publicar o livro perdido, mas Saramago não autorizou.

O escritor português, no entanto, deu a opção a seus herdeiros de autorizar a publicação após sua morte.

sábado, 18 de junho de 2011

Saramago: um ano após a morte do escritor

A viúva do escritor português José Saramago disse à Lusa que as cinzas serão colocadas "em frente ao rio Tejo, em frente à Casa dos Bicos", espaço onde funcionará a Fundação José Saramago.

"Uma cerimónia que se pretende simples mas solene onde será lido por Lídia Jorge um texto seu -  "Palavras para Lisboa". E que será encerrada, com o presidente da Câmara de Lisboa e os Toca a Rufar", explicou.

"Sincero, íntimo, aberto, mas solene com a solenidade das grandes coisas e das coisas íntimas", afirmou.

Questionada sobre a partilha da memória de Saramago entre Lisboa e Lanzarote (no arquipélago espanhol das Canárias), Del Rio afirmou que "por onde se passa, vai-se deixando memória".

Cinzas estão em Lisboa


"São os lugares que nos configuram e nós configuramos o lugar. Lanzarote foi-o para Saramago. Ele esteve ali e mudou o seu estilo literário quando esteve ali. Nada é gratuito quando se vive intensamente", afirmou.

Fonte da Fundação José Saramago disse à Lusa que as cinzas do escritor "encontram-se em Lisboa, num lugar privado".

A cerimónia de deposição, organizada em conjunto pela fundação e pela Câmara Municipal de Lisboa, está marcada para as 11:00, e conta com a presença de amigos, familiares e representantes de instituições públicas.

Oliveira da terra natal do escritor


Esta semana chegou da Azinhaga do Ribatejo, aldeia natal de Saramago, a oliveira centenária que o escritor refere no livro "As Pequenas Memórias" (2006) e que foi plantada na quinta feira no Campo das Cebolas.

Será junto a ela que serão depositadas as cinzas do escritor.

Ainda segundo a fundação, junto à oliveira ficará um banco de jardim - "para que as pessoas ali se possam sentar, recordar o escritor ou ler as suas obras" - e uma placa com a frase : "Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia", retirada do romance "Memorial do Convento".

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cinzas de Saramago serão depositadas junto à Casa dos Bicos

Cinzas de Saramago serão depositadas junto à Casa dos Bicos


A Fundação Saramago revelou esta quinta-feira que as cinzas do escritor português José Saramago vão ser depositadas no dia 18 de Junho, pelas 11 horas, junto à Casa dos Bicos, em Lisboa.

A cerimónia, que terá lugar precisamente no dia em que se assinala o primeiro aniversário da morte do escritor, «não será de despedida, porque há pessoas a quem não se pode dizer adeus», disse a Fundação.

As cinzas ficarão no Campo das Cebolas junto a uma oliveira de Azinhaga do Ribatejo, de onde é natural Saramago, junto a um banco de jardim e a uma placa com a frase «Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia», do seu romance «Memorial do Convento».

A cerimónia contará com a presença de Jorge Vaz e Carvalho, da escritora Lídia Jorge e do grupo de percussão Tocá Rufar, e será encerrada pelo presidente da Câmara de Lisboa, António Costa.

Para além desta homenagem, vai haver lugar a outras iniciativas:

Dia 17: Apresentação dos livros «Palavras para José Saramago», «O silêncio da Água», de Saramago, e «A última entrevista de José Saramago», de José Rodrigues dos Santos, nos Paços do Concelho, em Lisboa.

Dia 18: Exibição do documentário «José & Pilar», de Miguel Gonçalves Mendes, com a presença da mulher de Saramago, Pilar del Rio, na Cinemateca Portuguesa.

Dia 19: Espectáculo «As sete últimas palavras de Cristo na cruz», com música de Haydn, textos de Saramago e encenação da realizadora Teresa Villaverde, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Também em Espanha, no dia 14, a Casa da América, em Madrid, terá o espectáculo «Vozes de Mulher na Obra de Saramago», com a participação de Pilar del Río, Pilar Bardem, Aitana Sánchez-Gijon e María Pagés.

Recorde-se que Saramago, Nobel da Literatura, morreu a 18 de Junho de 2010, aos 87 anos de idade.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

‎"A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver".

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Obra humana

Deus e o Diabo estão dentro de nós: aí nasceram e aí vivem. O bem e o mal são obra humana. Não posso acreditar num Deus que não existe ou que nunca se deu a conhecer. Eu não necessito de Deus. Nunca tive nenhuma crise religiosa. Vivi o meu ateísmo com uma tranquilidade total. E digo a mim mesmo: nasceste, estás a viver, morrerás e acabou-se.

El Universal, México D. F., 16 de Maio de 2003
In José Saramago nas Suas Palavras

quinta-feira, 31 de março de 2011

Saramago homenageado hoje no México


A cerimónia -- durante a qual será lido um texto inédito do escritor português sobre Maria Madalena -- conta com a participação da viúva do escrito, Pilar del Río, e da actriz e ativista social Ofelia Medina, da jornalista e activista de direitos humanos Lydia Cacho, da soprano mexicana Lourdes Ambriz, da cantora de rock Ely Guerra e das atrizes de teatro e cinema Irene Azuela e Clarissa Malheiros.
A homenagem ao autor falecido a 18 de junho de 2010, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1998, decorre no Palácio das Belas Artes, na capital mexicana.
A direção é de António Castro, o cenário de Mónica Raya e o desenho de luzes de Victor Zapatero.
António Castro dirigiu José Saramago e o ator Gale García Bernal no espetáculo "As Intermitências da Morte", que foi apresentado em 2006 no Teatro Diana de Guadalajara, durante a Feira Internacional do Livro.
Em declarações à agência Efe, Pilar del Río disse que o livro "Ensaio sobre a Lucidez", de José Saramago, antecipou o que está a passar-se em alguns países árabes, onde o povo conseguiu derrubar ditadores.
Editado em 2004, "Ensaio sobre a Lucidez" narra a história de um povo que decide votar em branco nas eleições municipais, provocando as suspeitas e o termos de uma rebelião do governo no poder.
Pilar del Río referiu-se a uma fragmento do texto em que os cidadãos permanecem durante alguns doas na principal praça da cidade conseguindo derrubar um governador e quando regressam à vida quotidiana organizam-se e limpam o lugar.

Pilar diz que Saramago antecipou acontecimentos nos países árabes

Para Pilar del Río, viúva de José Saramago, a obra do escritor português “Ensaio sobre a lucidez”, de 2004, antecipa o que está a acontecer em alguns países árabes.

“Saramago disse sempre que o poder da cidadania é único poder legítimo. Foi antecipatório de muitas coisas que estão a acontecer agora nos países árabes”, disse Pilar aos jornalistas durante a sua participação no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, que exibe o documentário “José e Pilar” fora da competição.

Em “Ensaio sobre a lucidez”, José Saramago escreveu a história de um povo que nas eleições do seu país optou por votar em branco, surpreendentemente e sem ter dado qualquer sinal prévio de que isso fosse acontecer. Não satisfeito com os resultados, o poder político convoca novas eleições e os votos em branco repetem-se, levantando assim as suspeitas do governo que decide desencadear uma vasta operação policial para descobrir de onde surgiu o movimento. São questões sobre a democracia e as ditaduras que Saramago levanta e que Pilar del Río acredita serem reflexões da realidade dos dias de hoje.

Jornalista e tradutora da obra de Saramago, Pilar defendeu em Guadalajara que o escritor não foi um visionário, mas sim um intelectual que, à custa de muita reflexão e observação, conhecia muito bem as falhas do mundo.

“Era um homem que pensava, que via o mundo e sabia onde estavam as suas falhas, ele sabia que não havia uma crise económica mas sim moral e que por isso vamos demorar muito tempo a conseguir sair dela”, contou Pilar sobre o Prémio Nobel da Literatura.

Pilar del Rio esteve a promover o documentário que retrata a vida do escritor e da relação de amor e trabalho que tinha consigo, acompanhando o casal na escrita e na divulgação do livro "Viagem do elefante”.

terça-feira, 29 de março de 2011

António Ferreira leva «Embargo» aos Estados Unidos

O cineasta português António Ferreira vai desloca-se aos Estados Unidos para apresentar a sua longa-metragem no «27th Chicago Latino Film Festival», que decorrerá de 1 a 14 de Abril, revelou à agência Lusa fonte da produção.

Baseado no conto homónimo de José Saramago, inserido na obra «Objecto Quase», o filme teve a sua estreia comercial em Portugal em Setembro passado e tem sido exibido em festivais de vários países, designadamente em França, Itália, Brasil, Espanha, Suécia e Canadá.

Em Portugal, «Embargo» já ganhou dois prémios: a Menção Honrosa do Júri Internacional no Fantasporto 2010 e o Prémio de Melhor Argumento Adaptado nos XVII Caminhos do Cinema Português 2010. 

Fascinado pela escrita de José Saramago, o cineasta António Ferreira transportou consigo a ideia de um filme durante 15 anos, que acabou por concretizar em «Embargo», que se inspira na crise petrolífera.

A premência em adaptar aquela obra do Prémio Nobel da Literatura surgiu quando vivenciou em meados de 2008 as consequências de uma greve dos camionistas, com as longas filas que se formavam para abastecer as viaturas de combustível, e a ruptura de stocks alimentares nos supermercados. 

Em «Embargo», vive-se numa época em que não há combustíveis, os supermercados entram em ruptura. No meio deste caos, sobrevive um homem, «Nuno», que desespera por vender uma invenção electrónica e vive o drama de estar misteriosamente preso dentro do carro.

Para protagonista deste filme, António Ferreira escolheu Filipe Costa, que se iniciou como actor no teatro universitário de Coimbra e foi fundador das bandas musicais «Bunnyranch» e «Sean Riley & The Slowriders». Do elenco de «Embargo» fazem parte também os atores Cláudia Carvalho, Pedro Diogo, Fernando Taborda, José Raposo, Miguel Lança e Eloy Monteiro.

 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Visita guiada à ilha de Saramago

Todas as tardes, em Lanzarote, nas ilhas Canárias, José Saramago saía para dar um passeio. Gostava de o fazer porque ia pensando à medida que caminhava. Um dia, enquanto estava a escrever Ensaio sobre a Cegueira, no ano de 1993, quando ainda não se usavam telemóveis, saiu por volta das seis da tarde. Nesse dia Pilar del Río, a sua mulher, não o acompanhou porque tinha a mãe, de visita, lá em casa. As horas passaram. José não regressava.

Quando eram quase dez horas da noite, José Saramago apareceu em casa. Completamente sujo, amachucado e com pequenas feridas. Contou que tinha subido até ao cimo da Montaña Blanca e que descer tinha sido muito complicado. Fê-lo pelos sulcos de água. Esta é a quinta montanha de Lanzarote em termos de altitude, o cume fica a 595 metros. Para subir e descer, Saramago teve de se agarrar ao mato. Não há estrada, nem caminho, nem trilho. Tinha as mãos ensanguentadas.

Pilar queria matá-lo. Só dizia: “Ele não se matou a subir à Montaña Blanca mas eu estou a ponto de o matar.” Durante vários dias o escritor ficou sem se poder mexer. Quando se queixava de alguma dor, a mulher só lhe dizia: “Aguenta! Aguenta!” E Saramago explicava: “É que eu subi lá a cima!” E ela respondia: “Mas que bem.” Foi a primeira vez que fez isso e a última. Foi um impulso. A montanha e o homem. “Ele era tão transgressor em todas as normas, por que não fazê-lo?”

quinta-feira, 17 de março de 2011

Casa e Biblioteca Saramago abrem amanhã em Lanzarote

A Casa e a Biblioteca de José Saramago em Lanzarote vão abrir portas esta sexta-feira, com presença do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, e da vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto.

Amanhã cumprem-se nove meses sobre a morte do autor. Nesse dia, abrem estes dois espaços para que os seus amigos, os seus leitores, as pessoas que precisem de ver como, onde e de que maneira trabalhava e vivia o seu Escritor, possam percorrer os espaços que habitou a maior parte dos seus últimos anos de vida… e onde escreveu livros memoráveis, escreve a organização.
Na cerimónia de abertura, a directora da Casa Pessoa, Inês Pedrosa, vai ler um fragmento de «O Ano da Morte de Ricardo Reis» em português que, posteriormente, será reproduzido em castelhano por uma artista canária.
A presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Rio, vai explicar os motivos pelos quais abre ao público «um espaço tão íntimo».
A partir de dia 21 de Março, das 10:00 às 14:00 Horas, a Casa e a Biblioteca em Lanzarote poderão ser visitados em grupos reduzidos (não mais do que 15 pessoas), a cada meia hora. A Casa estará aberta ao público de segunda-feira a sábado, inclusive. 

sexta-feira, 11 de março de 2011

"O Silêncio da Água", novo livro de José Saramago para crianças


11/03/11

fjs
Nas margens do rio Tejo, um menino tenta pescar um grande peixe. No momento em que o deixa escapar, começa para ele o despertar da lucidez. A partir de uma recordação de infância, José Saramago elabora uma fábula de grande beleza e sabedoria que Manuel Estrada ilustra maravilhosamente.
O Silêncio da Água é um fragmento de As Pequenas Memórias (2006), volume que reúne as memórias de infância e adolescência de José Saramago. A obra significou a conclusão de um projecto previsto havia mais de vinte anos. Em 1998 Saramago afirmava: "O que quero é recuperar, saber, reinventar a criança que fui, que é o pai da pessoa que sou. Para além do pai e da mãe biológicos, eu diria que o pai espiritual do homem que sou é a criança que fui».
O Silêncio da Água estará disponível em espanhol e catalão já no mês de Março, publicado pela Libros del Zorro Rojo. Em Portugal e no Brasil será editado brevemente pela Editorial Caminho e pela Companhia das Letras, respectivamente.

Pelo fim dos maus tratos contra as mulheres. Eu pronuncio-me!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Viagem ética

Realmente, a minha proposta [em A Jangada de Pedra] é romper a dicotomia Norte-Sul com uma viagem que não seria física, mas sim ética. A Europa tem de olhar o Sul como um lugar que explorou, que colonizou e tem de reverter esse dano.

“Yo no he roto con Cuba”, Rebelión, 12 de Outubro de 2003
In José Saramago nas Suas Palavras

Para ver nas paredes do Campo das Cebolas

'O heroico no ser humano é não pertencer a um rebanho." A frase do Nobel da Literatura, José Saramago, encabeça uma série "sentenças" proferidas por si ou pela sua mulher, Pilar del Rio, que desde 17 de janeiro estão graffitadas na nave do Campo das Cebolas, em Lisboa. A intervenção urbana promovida pela JumpCut, em parceria com a Dedicated Store Lisboa e apoiada pela Galeria de Arte Urbana da autarquia, fica estrategicamente ao lado da futura Fundação Saramago.
Os writers Ayer, Nomen, Nark e Pariz também desenharam outras citações: "Sempre chegamos aonde nos esperam", "Mais vale fazer asneira mas avançarmos do que não fazermos nada", "Na Sociedade atual falta-nos filosofia, precisamos do trabalho de pensar", "Sabemos muito mais do que achamos e podemos muito mais do imaginamos", "Temos de eliminar a palavra cansaço do nosso dicionário pessoal", "O caos é uma ordem por decifrar".


Fonte: http://aeiou.visao.pt/


domingo, 30 de janeiro de 2011

Um perigoso acriticismo

Acreditámos que com a democracia abandonávamos certos medos, mas trocámo-los por outro medo colectivo e geral que nada tem a ver com a tortura ou a censura. É o temor constante de perder o emprego, um medo que limita e condiciona totalmente a vida de quem o sente. E esse medo alimenta o verdadeiro governo do mundo de hoje, o poder das multinacionais que conforma tudo à sua própria lógica. Uma lógica que impõe um perigoso acriticismo que cresce como uma mancha de óleo por todo o mundo. Parece que a norma é não pensar, não reagir, não criticar.

“Saramago, el pesimista utópico”, Turia, Teruel, nº 57, 2001
In José Saramago nas Suas Palavras

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Levantado do Chão

"Acho que do chão se levanta tudo, até nós nos levantamos. E sendo o livro como é - um livro sobre o Alentejo - e querendo eu contar a situação de uma parte da nossa população, num tempo relativamente dilatado, o que vi foi todo o esforço dessa gente de cujas vidas eu ia tentar falar é no fundo o de alguém que pretende levantar-se. Quer dizer: toda a opressão económica e social que tem caracterizado a vida do Alentejo, a relação entre o latifúndio e quem para ele trabalha, sempre foi - pelo menos do meu ponto de vista - uma relação de opressão. A opressão é, por definição, esmagadora, tende a baixar, a calcar. O movimento que reage a isto é o movimento de levantar: levantar o peso que nos esmaga, que nos domina. Portanto, o livro chama-se Levantado do Chão porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é nos chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro."

publicado no jornal O Tempo em Novembro de 1981

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Quantos Haitis?

No Dia de Todos os Santos de 1755 Lisboa foi Haiti. A terra tremeu quando faltavam poucos minutos para as dez da manhã. As igrejas estavam repletas de fiéis, os sermões e as missas no auge… Depois do primeiro abalo, cuja magnitude os geólogos calculam hoje ter atingido o grau 9 na escala de Richter, as réplicas, também elas de grande potência destrutiva, prolongaram-se pela eternidade de duas horas e meia, deixando 85% das construções da cidade reduzidas a escombros. Segundo testemunhos da época, a altura da vaga do tsunami resultante do sismo foi de vinte metros, causando 600 vítimas mortais entre a multidão que havia sido atraída pelo insólito espectáculo do fundo do rio juncado de destroços dos navios ali afundados ao longo do tempo. Os incêndios durariam cinco dias. Os grandes edifícios, palácios, conventos, recheados de riquezas artísticas, bibliotecas, galerias de pinturas, o teatro da ópera recentemente inaugurado, que, melhor ou pior, haviam aguentado os primeiros embates do terramoto, foram devorados pelo fogo. Dos 275 mil habitantes que Lisboa tinha então, crê-se que morreram 90 mil. Conta-se que à pergunta inevitável “E agora, que fazer?”, o secretário de Estrangeiros Sebastião José de Carvalho e Melo, que mais tarde viria a ser nomeado primeiro-ministro, teria respondido “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. Estas palavras, que logo entraram na História, foram efectivamente pronunciadas, mas não por ele. Disse-as um oficial superior do exército, desta maneira espoliado do seu haver, como tantas vezes acontece, em favor de alguém mais poderoso.

A enterrar os seus cento e vinte mil ou mais mortos anda agora o Haiti, enquanto a comunidade internacional se esforça por acudir aos vivos, no meio do caos e da desorganização múltipla de um país que mesmo antes do sismo, desde gerações, já se encontrava em estado de catástrofe lenta, de calamidade permanente. Lisboa foi reconstruída, o Haiti também o será. A questão, no que toca ao Haiti, reside em como se há-de reconstruir eficazmente a comunidade do seu povo, reduzido não só à mais extrema das pobrezas como historicamente alheio a um sentimento de consciência nacional que lhe permitisse alcançar por si mesmo, com tempo e com trabalho, um grau razoável de homogeneidade social. De todo o mundo, de distintas proveniências, milhões e milhões de euros e de dólares estão sendo encaminhados para o Haiti. Os abastecimentos começaram a chegar a uma ilha onde tudo faltava, fosse porque se perdeu no terramoto, fosse porque nunca lá existiu. Como por acção de uma divindade particular, os bairros ricos, em comparação com o resto da cidade de Porto Príncipe, foram pouco afectados pelo sismo. Diz-se, e à vista do que aconteceu no Haiti parece certo, que os desígnios de Deus são inescrutáveis. Em Lisboa as orações dos fiéis não puderam impedir que o tecto e e os muros das igrejas lhes caíssem em cima e os esmagassem. No Haiti, nem mesmo a simples gratidão por haverem salvo vidas e bens sem nada terem feito para isso, moveu os corações dos ricos a acudir à desgraça de milhões de homens e mulheres que não podem sequer presumir do nome unificador de compatriotas porque pertencem ao mais ínfimo da escala social, aos não-ser, aos vivos que sempre estiveram mortos porque a vida plena lhes foi negada, escravos que foram de senhores, escravos que são da necessidade. Não há notícia de que um único haitiano rico tenha aberto os cordões ou aliviado as suas contas bancárias para socorrer os sinistrados. O coração do rico é a chave do seu cofre-forte.
Haverá outros terramotos, outras inundações, outras catástrofes dessas a que chamamos naturais. Temos aí o aquecimento global com as suas secas e as suas inundações, as emissões de CO2 que só forçados pela opinião pública os governos se resignarão a reduzir, e talvez tenhamos já no horizonte algo em que parece ninguém querer pensar, a possibilidade de uma coincidência dos fenómenos causados pelo aquecimento com a aproximação de uma nova era glacial que cobriria de gelo metade da Europa e agora estaria dando os primeiros e ainda benignos sinais. Não será para amanhã, podemos viver e morrer tranquilos. Mas, di-lo quem sabe, as sete eras glaciais por que o planeta passou até hoje não foram as únicas, outras haverá. Entretanto, olhemos para este Haiti e para os outros mil Haitis que existem no mundo, não só para aqueles que praticamente estão sentados em cima de instáveis falhas tectónicas para as quais não se vê solução possível, mas também para os que vivem no fio da navalha da fome, da falta de assistência sanitária, da ausência de uma instrução pública satisfatória, onde os factores propícios ao desenvolvimento são praticamente nulos e os conflitos armados, as guerras entre etnias separadas por diferenças religiosas ou por rancores históricos cuja origem acabou por se perder da memória em muitos casos, mas que os interesses de agora se obstinam em alimentar. O antigo colonialismo não desapareceu, multiplicou-se numa diversidade de versões locais, e não são poucos os casos em que os seus herdeiros imediatos foram as próprias elites locais, antigos guerrilheiros transformados em novos exploradores do seu povo, a mesma cobiça, a crueldade de sempre. Esses são os Haitis que há que salvar. Há quem diga que a crise económica veio corrigir o rumo suicida da humanidade. Não estou muito certo disso, mas ao menos que a lição do Haiti possa aproveitar-nos a todos. Os mortos de Porto Príncipe foram fazer companhia aos mortos de Lisboa. Já não podemos fazer nada por eles. Agora, como sempre, a nossa obrigação é cuidar dos vivos.

José Saramago
(Texto publicado em O Caderno de Saramago a 08 de Fevereiro de 2010)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Membros de um rebanho

Sempre acreditei que, para além da antropofagia directa, há outra forma de devorar o próximo: a exploração do homem pelo homem. Neste sentido, a história da humanidade é a história da antropofagia. Isto obriga-nos a um compromisso activo. Em primeiro lugar, temos a obrigação de não permitir que nos ceguem, pois se nos deixam cegos, comportar-nos-emos, ainda mais do que agora, como membros de um rebanho, um rebanho que avança até ao suicídio.

“Saramago, el pesimista utópico”, Turia, Teruel, nº 57, 2001
In José Saramago nas Suas Palavras

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Cinzas de Saramago em oliveira

Uma oliveira guardará as cinzas de José Saramago, no memorial a inaugurar diante da Casa dos Bicos, de Lisboa, a 18 de Junho. A data, que assinala o primeiro aniversário da morte do escritor, seria também ideal, segundo os responsáveis da Fundação Saramago, para a abertura da sede na Casa dos Bicos.
Várias iniciativas serão anunciadas ao longo de 2011, ano em que é provável a publicação do texto incompleto deixado pelo escritor, como disse Zeferino Coelho, editor e amigo do Nobel.
Já outra fundação, a Calouste Gulbenkian, celebra agora outra figura maior da literatura: a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen é a base de um congresso internacional nos próximos dias 27 e 28. A Biblioteca Nacional, por outro lado, recebe da família da poetisa o espólio no dia 26, e inaugura na mesma data uma grande exposição sobre a sua vida e obra.